Por que não tenho mais carro?

Um acidente me fez rever prioridades e encontrar alternativas

Sofri um acidente com perda total do carro e ao invés de comprar outro, guardei o dinheiro do seguro. Comprei um monociclo elétrico (mais sobre em outro artigo), que uso quando o clima está bom. Quando chove, ando de Uber. Para viajar, alugo um carro somente quando preciso. Financeiramente tem valido muito a pena, principalmente com a pandemia. Mas talvez quando eu tiver filhos, faça mais sentido comprar um carro novamente.

Ter um carro oferece uma série de benefícios e confortos. Mas também demanda gastos, previstos e imprevistos, como também certa preocupação com trânsito, manutenção e acidentes. Por vezes parece que a incomodação não vale a pena, não é?

Desde que a Uber chegou na cidade onde moro, um certo pensamento andou rondando a minha mente e a de alguns amigos: Pra quê ter carro se posso andar só de Uber?

Rodei então uma análise inicial com base na minha rotina… Alguns valores considerei minha média mensal, como combustível, já outros, como manutenção, considerei o valor que gastei no último ano como referência. A depreciação consegui fazer uma estimativa comparando a variação do valor da tabela Fipe ao longo de alguns anos.

Exemplo de tabela. que usei inicialmente para comparar custos (valores removidos pois variam muito)

O resultado foi que o Uber sairia mais caro! Simplesmente substituir o carro pelo Uber, continuando a fazer o mesmo número de viagens nos mesmos trechos, não valeria a pena. E só de imaginar o trabalho de vender o carro para depois correr o risco de me arrepender e ter que gastar mais tempo procurando outro para comprar… Acabei deixando essa questão pra lá.

Em uma viagem na rodovia, sofri um acidente por ter óleo na pista. Ninguém se machucou, mas houve a perda total do carro. Me vi na situação de ter o valor integral do carro ressarcido pelo seguro, e passei a andar de Uber enquanto procurava outro carro para comprar.

Passei a fazer alguns experimentos: Se eu andasse uma quadra até a rua principal para então pedir o Uber, a corrida até o escritório ficava mais barata. E se eu descesse uma quadra antes do trabalho, ficava mais barato ainda. Descobri uma outra coisa, que é bem óbvia: se eu fosse a pé para o trabalho, não gastaria nada. Passei a fazer isso nos dias com um bom clima e que eu conseguia sair em bom horário. Não precisava enfrentar o trânsito e de quebra fazia um exercício.

Então mudei um pouco aquela análise que fiz antes. Ao invés de simplesmente trocar o carro por Uber, eu deveria considerar essas mudanças no meu estilo de vida, que estava muito adaptado para quem tem carro. Morar em uma localização que tem disponível há poucas quadras de distância os principais estabelecimentos comerciais, tais como mercado, farmácia, banco, etc, além de morar a poucos quilômetros do escritório, facilitou muito esta mudança para um estilo de vida mais pedestre. Passei também a buscar alternativas que pudessem reduzir o meu uso tanto de carro quanto de Uber nos dias em que houvesse um clima bom.

Desisti de procurar outro carro para comprar, guardei o dinheiro e comecei a buscar alternativas de transporte. Nesta época os patinetes elétricos estavam em alta, ganhando certa publicidade no país, então além de pesquisar sobre patinetes, bicicletas, bicicletas elétricas, encontrei um outro veículo chamado monociclo elétrico.

Créditos: Tom Begley

Levando em conta essas novas descobertas, coloquei várias alternativas na mesa:

Eu já havia andado bastante de bicicleta alguns anos atrás, e sabia que no verão eu chegaria muito suado nos meus destinos se o transporte envolvesse muito esforço físico.

Uma moto demanda uma preocupação mecânica parecida com a do carro, apesar de muito mais econômica, mas o risco de acidente é muito maior.

O patinete praticamente não demanda manutenção, além da eventual troca de bateria, mas o pequeno diâmetro das rodas faz com que não seja muito prático em terrenos acidentados, como alguns dos trechos que preciso percorrer.

O monociclo elétrico tem uma curva de aprendizado maior, mas é muito divertido e se eu for surpreendido por uma chuva inesperada, cabe facilmente junto comigo dentro de qualquer Uber.

Terminei escolhendo experimentar o monociclo elétrico e passei a usar ele diariamente. Vou abordar com mais profundidade como foi esse processo num próximo artigo.

Análise final comparando custos (valores removidos pois variam muito)

A conta passou a fechar, com muita vantagem. O custo que eu gastaria usando o monociclo elétrico na maioria dos dias, somado ao Uber ocasional em dias de chuva, ficou muito mais barato do que o custo de ter um carro. Mas faltava resolver uma última parte da equação: as viagens para outras cidades.

Eu nunca tinha alugado carros antes, mas fui surpreendido muito positivamente com a facilidade, com a qualidade e com os preços. Poder escolher para cada viagem um carro diferente, mais barato ou mais confortável, é um diferencial interessante.

Mas nem tudo são flores: Preciso me programar com alguns dias de antecedência para viajar. Perco vários minutos na agência locadora para ser atendido até sair com o carro. Ainda não vivi um acidente com carro alugado, então não posso dar testemunho sobre como é essa experiência, principalmente falando do prejuízo financeiro que pode ser causado.

Além de economizar financeiramente, outro resultado positivo que observei foi mental: Não estavam mais recorrentemente na minha mente aqueles pensamentos que rondam as mentes de muitos donos de carros:

O que é esse barulhinho? Será que é o motor? A suspensão?

Quanto será que vai custar a manutenção dessa vez? Será que preciso trocar os pneus?

Deixa eu olhar aqui na garagem se tem algum vazamento de óleo…

Tenho que lembrar de deixar o carro na lavação… Será que devo pedir polimento também?

Quando é um bom momento pra trocar de carro?

Será que alguém encostou no meu carro aqui no estacionamento? Da onde veio essa marquinha na lataria?

Ter mais paz em relação a custos adicionais inesperados é muito bom.

Com a pandemia de 2020, passei a trabalhar de casa como muitos, e a necessidade de deslocamento diminuiu drasticamente. Como eu já estava sem carro, simplesmente diminuí os custos com transporte para quase zero, sem grandes consequências. Se estivesse com carro, continuaria tendo alguns custos com manutenção e depreciação, mesmo sem utilizar o veículo.

Porém, nos momentos onde necessitei de transporte, ter que recorrer ao Uber significou mais um vetor de possível contaminação viral. Em alguns momentos, o número de motoristas disponíveis diminuiu muito, e o tempo de espera para as corridas aumentou, prejudicando a experiência. Passando tempo demais em casa, aumentou muito a necessidade de fazer alguma pequena viagem de carro para o interior, para entrar em contato com a natureza e poder espairecer um pouco, e nestes momentos sentimos falta de ter um carro à disposição para evitar qualquer contato desnecessário.

Financeiramente, abrir mão de ter um carro tem valido muito a pena, principalmente com a pandemia que diminuiu nossas necessidades diárias de transporte. Essa vantagem se dá principalmente por ter conseguido adaptar meu estilo de vida para uma modalidade mais pedestre, aliado ao uso de veículos elétricos pessoais.

No entanto, projeto que talvez não consiga manter esse estilo de vida mais pedestre para sempre. Provavelmente quando eu tiver filhos, as necessidades de transporte aumentem, fazendo mais sentido comprar um carro novamente.

Software Craftsman — Engineering Lead @ Mercos

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